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Universidade na Alemanha

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Queridas e queridos,

como prometi no último post, vou falar hoje um pouco do estudo em uma Uni alemã. De cara vou dizendo que não sei se as minhas experiẽncias se estendem a todas as Unis daqui. Vou falar um pouco de como funciona o meu curso na Uni Heidelberg.

Pois é que eu cheguei aqui com meu diploma da UFF na mão, achando que não seria tão difícil. Ledo engano… Bem, a situação de reconhecimento de diplomas estrangeiros aqui na Alemanha é complicada, principalmente para quem estudou algo que não é regulamentado, como é o meu caso, germanista que sou.

Bem, antes de chegar, mandei minha candidatura pra Uni Mannheim, para um mestrado em Alemão como língua estrangeira (DaF). E sabe o que aconteceu? Os correios sentaram em cima da minha carta e ela chegou um dia depois da data limite. Não, aqui não tem jeitinho, e eles me devolveram a papelada toda por correio, já no meu endereço alemão. Decepção.

Então um tempo depois de pensar e ver que com bacharelado em alemão aqui a minha vida seria difícil, decidi me candidatar para o Lehramt, a formação de professores, em inglês. Só que, pára tudo: Os professores aqui tem que estudar DUAS matérias na Uni. As combinações são relativamente livres, mas não tem como fugir. Bem, me candidatei pro inglês no Sommersemester, fiz a prova de inglês que eles exigiam pra todos os candidatos (TOEFL e Cambridge não eram aceitos) e bem, consegui minha vaga 🙂 No segundo semestre fui aceita para Ciências Políticas como minha segunda matéria.

O esquema aqui é bem diferente do que temos no Brasil, pelo menos do que tive na UFF:

* A flexibilidade do currículo é enorme! Obviamente você tem matérias obrigatórias, mas as optativas são realmente optativas, ou seja, vc escolhe praticamente o que quiser fazer. Você pode fazer muitos créditos a mais do que o previsto se tiver disposição e vontade;

* O sistema de Vorlesung (lectures): Você entra num auditório com duzentas cabeças (minha turma de economia tem uns 500 alunos) e o professor geralmente LÊ a aula. Dependendo do professor, eu reconheço, é sacal. Mas normalmente nessas aulas você não tem que marcar presença; Via de regra existe então um Tutorium (que é como se fosse a monitoria) que você é obrigado (aí sim, com direito a só duas faltas por semestre) a visitar para tirar dúvidas, fazer exercícios etc etc;

* O pouco contato com os Dozenten: Aqui os professores te dão no começo um programa do semestre inteiro, uma lista de bibliografia recomendada, alguns dão umas perguntas para pontos-chave de alguns temas. O estudo depende muito mais do aluno, que tem que pesquisar ele mesmo as coisas. Ninguém vai te dizer quais páginas do livro você deve ler…

* A competição dos alunos em ser “o melhor”. Muita gente que fica tentando falar difícil, escrever duzentas mil referências e notas, enfim, mostrar que é bem informado e que lê muito. Não espere apresentar um seminário e ficar sem uma pergunta da turma. Isso raramente acontece, pela minha experiência até agora.

* Os alunos entra(vam) de maneira geral um pouco mais tarde na faculdade. A maior parte dos calouros tem entre 19 e 21 anos. A escola dura um pouco mais aqui (o Gymnasium, digo) e os meninos iam para o exército ou para algum trabalho social por um ano depois da escola. Mas agora tiraram um ano da escola e a obrigatoriedade do serviço militar. Ou seja, o semestre de verão já teve MUITO mais gente do que o normal até então.

* A admissão se dá pela nota do Abitur, que é um exame que é prestado no fim da escola. Ele não é um concurso como o vestibular, e sim um exame de conclusão do ensino médio. Com as suas notas você pode se candidatar a qualquer universidade do país e torcer para ser aceito. Para algumas matérias existem NCs, as Numerus Clausus, ou seja, existe uma certa nota mínima para entrar. Na minha matéria o NC era de 1,7 (equivalente, digamos a um 9,4 no Brasil?). Mas isso depende de Uni pra Uni. A Universidade de Heidelberg é considerada Universidade de Elite, por isso, aqui as notas são mais altas.

* Quem não tem Abitur, como a gente, tem duas possibilidades. Faz dois anos de Studienkolleg, que é uma complementação do ensino médio visando o ingresso em universidades alemãs; Quem já estudou no ensino superior brasileiro é analisado pelas notas escolares e fica livre destes dois anos por já ter “experiência” no ensino superior. É então, avaliado como os alunos alemães.

Ufa! É tanta coisa e não é tudo! Mas acho que já dá pra ter uma idéia de como funciona 🙂 Falo mais em outro post 🙂

Agora: Gente doidinha tem em todo lugar. Estudei ontem até as duas da manhã para uma reunião de organização de um seminário a apresentar. Quando acabei de ler, peguei meu telefone e vi a mensagem da colega, dizendo que não poderia mais ir à reunião. Posso falar que fiquei p@#$ da vida? Em compensação, hoje acordei às nove e estou aqui escrevendo pra vocês 😛

Coisas da vida. Boa semana, everybody!

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O fracasso da integração

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Estava no meu cantinho no trabalho quando a Hotelfachfrau chega esbaforida (desconto, ela sempre está esbaforida, mas é gente boa) me contando que dois hóspedes teriam reclamado após algum mal entendido da parte deles que o recepcionista da noite anterior konnte kein richtiges Deutsch. O rapaz em questão é um peruano que, segundo a responsável pelo hotel, se expressa muito bem em alemão e que tem pouquíssimo sotaque (não, eu não o conheço).

Achei muito sensata a resposta que ela deu para os hóspedes: De que ele falava alemão muito bem sim, do contrário não teria sido contratado para a recepção, e que deveria-se esperar que um hotel fosse uma equipe multi-cultural, não só em relação aos hóspedes, mas também em relação à equipe. Ao me contar o caso, ela relatou que tem ouvido cada vez mais esta mesma reclamação de seus conterrâneos alemães. Ao ouvir a história, disse a ela que na minha ainda curta experiência aqui, a coisa realmente é assim. É engraçado, escutamos muito falarem sobre o amor que os franceses tem por sua língua, por exemplo. E de como se negam a falar inglês com turistas. No entanto o que os alemães fazem aqui não está assim tão longe desse patriotismo línguístico, digamos.

Quando se chega já falando alemão, as pessoas te elogiam. “Nossa, você se comunica tão bem, em tão pouco tempo”. Daí segue uma chuva de explicações, afinal não se aprende uma língua de um dia para o outro, aquilo já é resultado do seu esforço, não só antes no curso de alemão, quanto aqui, tentando se virar no dia-a-dia. Converse um pouco mais de tempo e cometa seu primeiro erro de declinação. Aí, queridos, o mundo cai e você passa a não falar alemão direito, pelo menos não direito o bastante para estes seres.

Até a parte de se integrar, de aprender sobre o novo país, de estar aberta (o) à nova cultura e estilo de vida, tudo bem. Concordo com tudo isso. O que acontece é que aqui, eles estão perdendo meio que o controle disso tudo. O número de Ausländer aumenta a cada dia, e cada vez mais se pensa em como fazer essas pessoas se integrarem na sociedade alemã. E daí, que por mais que existam cursos de integração e afins, isso é muito difícil de controlar, principalmente tentar integrar aqueles que vem de uma cultura muito diferente, como por exemplo os turcos que são de religião islâmica. Daí, que viver na Alemanha acaba sendo ver véus ou burcas com uma certa frequência, ver mulheres que tem uma vida social limitada devido aos costumes da família, ver meninas que não podem fazer educação física ou participar de excursões na escola por conta de religião. Acaba também sendo ver muitos alemães reclamando disso tudo, alguns de um modo até muito agressivo. E muitos só reclamando e não fazendo nada.

O problema é que reclamar sendo alemão tem uma carga histórica pesada. Se um alemão reclama de estrangeiros, logo será taxado de racista ou nazista. Então, mesmo o governo passou um tempo meio que ignorando a situação, digo, não se manifestando tanto a respeito, julgando tudo como resolvido e bem sucedido, por medo desse fardo histórico nazista (minha leitura). Por muito tempo, a Alemanha foi o país do Multikulti, da diversidade. Até que em 2010, o então membro do Banco Central Alemão e político do SPD, Thilo Sarrazin, escreve o livro “Deutschland schafft sich ab” e fala de maneira polêmica sobre imigração e tudo aquilo que muitos gostariam de abordar e não tinham coragem. No fim do mesmo ano, a Bundeskanzlerin Angela Merkel declara “ Multikulti ist gescheitert” ao falar sobre as novas políticas de integração, e o ministro das relações exteriores, Westerwelle, a contradiz dizendo que “Multikulti ist Deutschlands Realität”.

Tão confuso quanto o assunto é nas altas cúpulas, é também entre a população. A mesma pessoa que defendeu seu funcionário dos turistas mal-humorados, por exemplo, acredita que os alemães colocam todos os estrangeiros no mesmo barco porque o país está saturado dos maus imigrantes, que só querem os benefícios do estado de bem-estar social. Recebem os auxílios-desemprego, aluguel e tudo mais, tudo para o migrante é muito fácil.

E olha, por mais que eu saiba que eles existem, sei também que existem muitos alemães não muito diferentes. Apesar de não precisar deste benefícios, sei de outros procedimentos extremamente burocráticos e o quanto requerer o que quer que seja na Alemanha não é tão fácil assim. Também sei que é muito desagradável ser igualada (o) a estes tipos sendo alguém que se esforça para fazer a diferença na sociedade que a (o) recebe. O problema é que isso tudo é como uma bola de neve. Uma situação leva a outra e uma reforça a outra. Os estrangeiros que tentam se integrar tem tanta razão quanto os alemães que levantam de maneira sensata a problemática da imigração (quase) descontrolada. Perde-se a origem.

Por não ter o argumento milagroso, não discuti mais com ela sobre o assunto. Seria quase que querer descobrir se Tostines vende mais porque é fresquinho ou se é fresquinho porque vende mais.

Pelo menos agora tenho mais vontade de aprender a respeito.

Uma boa semana a todos!

Marina.

Wortschatz – Vocabulário

Hotelfachfrau – É a designação que se dá a quem faz o curso técnico de hotelaria, digamos. É como uma gerente do hotel. A diferença pro Brasil é que aqui normalmente a Hotelfachfrau faz recepção, café da manhã e fechamento de contas SOZINHA, não tem uma pessoa pra cada função.

konnte kein richtiges Deutsch – não sabia alemão direito.

Ausländer – Estrangeiro(s). Este ano o número de estrangeiros na Alemanha divulgado foi de mais 7 milhões, ou seja, 8,8% da população do país (Fonte: Jornal Die Welt)

Multikulti – Diversidade

SPD – Partido social democrata

Deutschland schafft sich ab” – Livro de Thilo Sarrazin sobre a integração de imigrantes na Alemanha. Em tradução livre, o título se chamaria “ A Alemanha está se destruindo”.

Bundeskanzlerin – Chanceler

Multikulti ist gescheitert” – A diversidade fracassou, frase da Chanceler Angela Merkel.

Multikulti ist Deutschlands Realität” – Diversidade é a realidade da Alemanha, frase do Ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle.

Ai que saudade…

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A saudade tá batendo forte: eu sempre soube que com essas minhas escolhas eu teria de conviver sempre com ela…

Mas no mais tá tudo bem aqui. Amanhã faço um passeio guiado pra conhecer a história de Oppau (sem segundas interpretações, por favor rs), mas vou tentar tirar uns minutos pra contar algumas coisinhas que eu já captei daqui.

Pólterabend ou a segunda festa

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Fiquei vários dias ocupadíssima com outras coisas e deixei o blog de lado, sei. Mas não me sentia inspirada para escrever. Bem, ela voltou a bater em minha porta, a inspiração. Por isso, resolvi escrever sobre a tal Polterabend, que é a segunda festa das comemorações alemãs. Poltern é estalar, fazer um barulho estridente, já Abend é a palavra para noite. Daí você me pergunta: O que uma coisa tem a ver com a outra?

Eu digo: Tudo!

Na Polterabend, os convidados se reúnem de maneira totalmente informal em um churrasco ou almoço/ jantar na casa da noiva (Pense nisso mãe, você escapou) e trazem porcelana (!) para quebrar, seguindo uma máxima alemã que acredita que “Scherben bringen Glück”. É, veja pelo lado positivo, os cacos devem mesmo trazer muita sorte, já que seu destino nesta noite, minha cara noiva, é passar boa parte da festa junto com seu noivo limpando tudo (!), enquanto seus amigos espalham mais a merda os cacos e dificultam sua vida. A primeira grande empreitada juntos.

Já ouvi relatos que tem alemão que se desfaz até de resto de contrução e que até vaso sanitário entra na roda ( hein?). Desde que não seja de vidro, tá valendo: A tradição diz que quebrar vidro em vez de porcelana ou cerâmica traz azar pro casal, o efeito contrário ao desejado com os benditos caquinhos.

Bom, mas nem tudo são ruínas nesta festa. Como é bastante informal, um convida o outro que convida o um e todos aparecem na festa dispostos a se divertir. Come-se muito, bebe-se muito (preciso mesmo falar isto dos alemães?) e enfim, esta é uma noite longa. Antigamente celebrava-se um dia antes do casamento de fato…

Mas nada como tempos modernos. Os noivos hoje sabem que chegar ao cartório/igreja de ressaca não é lá muito elegante. Hic!

* Glossário

“Scherben bringen Glück” – Cacos trazem felicidade. (Ou sorte, a palavra é a mesma, você pode traduzir como quiser)

Casamento Brasil x Alemanha

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Hallo!!!

Depois de escutar meus amigos aqui tecendo comentários sobre um site de casamento que conta a piegas longa trajetória de um casal apaixonado em uma espécie de blog, resolvi cumprir com minha promessa de falar das diferenças entre Brasil e Alemanha. E o tema não poderia ser outro senão casamento.

Quem leu os meus poucos posts percebe de cara que estou dooooida por conta do meu casamento que vai acontecer em Julho. Pois é.

Agora, convenhamos, se noivas que estão por aqui e vão se casar fazendo o circo, a velha conhecida festa à brasileira, com todos seus badulaques e formalidades e todo s os convidados de pinguim de geladeira com reboco na cara, imaginem queridos, como moi me sinto aqui nesse mundinho de casamento germânico. Medo!

Por outro lado, estou beeeem feliz porque acho que a forma de casar da terra do chucrute realmente combina mais comigo: Menos pompa e mais festa. Literalmente, mais festa.

São pelo menos três festas:

Junggesellinnenabschied: Nossa famosa despedida de solteiro, que no Brasil normalmente é só dos homens (morram de inveja, meninas), também é das mulheres… e é no estilo perdição em Las Vegas sem Las Vegas, a menos que vc tenha muitos euros pra bancar a viagem, óbvio!

Polterabend: Uma noite antes do casamento (intervalo não recomendado pelos experts de plantão, visto que no outro dia você estará morto(a)) todos se reúnem em um local alugado ou no quintal da casa da noiva, geralmente. os convidados levam porcelana em todos os formatos e tamanhos IMPOSSÍVEIS (vale até se desfazer das porcelanas velhas, resto de obras etc etc) e quebra. Os noivos tem que limpar tudinho juntos. Dizem trazer sorte e união (pudera!) pro casal. A parte boa é que é uma festa super informal que não precisa de um convite em papel e que todo mundo chega numa boa, come um churrasco, bebe umas cervejas daquelas pequenas de 500ml/copo e tá tudo bem.

Hochzeit: O casamento propriamente dito. Dia de se vestir de noiva pra quem quer, o casamento oficial é para poucos, só para a família e amigos mais próximos, nada de chamar uma cabeçada substancial. Quem é de igreja casa na igreja, quem não é, tem o Standesamt aí pra resolver, como no meu caso 😛

Bom, estas são minhas impressões pelo que a família do Chris me conta, e pelo o que tenho lido. Parece beeeeeeeeem divertido, não? no próximo post Vou dar uma idéia de como são essas festas.

Küsse!

Glossário:

Standesamt: Cartório de registro civil

Küsse: Beijos